{"id":898,"date":"2011-12-02T13:49:08","date_gmt":"2011-12-02T16:49:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brasil-economia-governo.org.br\/?p=898"},"modified":"2011-12-02T13:49:08","modified_gmt":"2011-12-02T16:49:08","slug":"incentivar-o-consumo-ou-a-poupanca-para-estimular-o-crescimento-economico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brasil-economia-governo.com.br\/?p=898","title":{"rendered":"Incentivar o consumo ou a poupan\u00e7a para estimular o crescimento econ\u00f4mico?"},"content":{"rendered":"
H\u00e1 certo consenso entre os economistas de que \u00e9 necess\u00e1rio investir mais para garantir taxas mais altas de crescimento no longo prazo. Afinal, uma das maneiras mais efetivas de aumentar a produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os da economia \u00e9 estimulando os investimentos em capital fixo (m\u00e1quinas, equipamentos, estradas, etc.).<\/p>\n
Os n\u00fameros variam, mas estima-se que uma taxa de investimento equivalente a 25% do PIB parece ser o m\u00ednimo necess\u00e1rio para garantir que o PIB possa crescer em torno de 5% a.a., sem superaquecer a economia (situa\u00e7\u00e3o em que as empresas n\u00e3o conseguem produzir tudo o que \u00e9 demandado pelos compradores, havendo falta de mercadorias, e na qual as empresas n\u00e3o conseguem encontrar trabalhadores para seus postos vagos; o que acaba por elevar sal\u00e1rios e pre\u00e7os, gerando aumento da infla\u00e7\u00e3o).<\/p>\n
Sabemos que uma das identidades b\u00e1sicas da economia \u00e9 que a poupan\u00e7a deve igualar o investimento. Logo, se a inten\u00e7\u00e3o for investir 25% do PIB, \u00e9 necess\u00e1rio que haja uma poupan\u00e7a tamb\u00e9m equivalente a 25% do PIB. Sabe-se tamb\u00e9m que a poupan\u00e7a total \u00e9 a soma da poupan\u00e7a dom\u00e9stica (poupan\u00e7a das fam\u00edlias e do governo) com a poupan\u00e7a externa. Ocorre que a poupan\u00e7a dom\u00e9stica brasileira tem se situado em torno dos 17% do PIB. Logo, seria necess\u00e1rio tomar emprestado uma poupan\u00e7a externa de uns 8% do PIB para sustentar investimentos de 25% do PIB.<\/p>\n
A\u00ed come\u00e7a a dificuldade, pois a poupan\u00e7a externa corresponde ao saldo em transa\u00e7\u00f5es correntes (TC) no balan\u00e7o de pagamentos. Assim, mantidas as condi\u00e7\u00f5es atuais, precisar\u00edamos de um d\u00e9ficit em transa\u00e7\u00f5es correntes equivalente a 8% do PIB para financiar o investimento. Ou seja, precisaremos ter um d\u00e9ficit nas transa\u00e7\u00f5es com os outros pa\u00edses, o que exigiria a entrada de moeda estrangeira no pa\u00eds, decorrente de empr\u00e9stimos e investimentos estrangeiros, para que tiv\u00e9ssemos divisas internacionais para cobrir o tal d\u00e9ficit em transa\u00e7\u00f5es correntes (afinal, os parceiros externos n\u00e3o aceitam o Real como meio de pagamento, pois a nossa moeda n\u00e3o tem curso no mercado internacional).<\/p>\n
Apesar de n\u00e3o existir uma \u201clei\u201d estipulando limites m\u00e1ximos para d\u00e9ficits em TC, na pr\u00e1tica, dificilmente pa\u00edses conseguem financiamento externo superior a 5% do PIB por per\u00edodos prolongados. Em geral, quando o d\u00e9ficit em TC passa dos 4%, a luz amarela j\u00e1 acende e os pa\u00edses passam a ter problemas de financiamento (\u00e9 preciso garantir constantemente a entrada moeda estrangeira no pa\u00eds para pagar os compromissos em moeda estrangeira, o que deixa os credores do pa\u00eds, em moeda estrangeira, temerosos de n\u00e3o receber seus cr\u00e9ditos, havendo uma redu\u00e7\u00e3o da oferta de empr\u00e9stimos internacionais ao pa\u00eds, ou o aumento do custo cobrado por esses empr\u00e9stimos).<\/p>\n
Por outro lado, a imprensa muitas vezes noticia que poupar \u00e9 ruim em um cen\u00e1rio de crise. Ao poupar, as pessoas e o governo n\u00e3o gastam, o que reduz a demanda agregada, o que gera desemprego, reduzindo ainda mais a demanda, etc. Ou seja, estariam criadas as condi\u00e7\u00f5es para um ciclo perverso: o governo e as fam\u00edlias n\u00e3o consomem, as ind\u00fastrias e demais empresas n\u00e3o vendem, h\u00e1 redu\u00e7\u00e3o no ritmo de produ\u00e7\u00e3o, aumenta o desemprego e ocorre nova rodada de encurtamento da atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n
Como resolver essa quest\u00e3o? Deve-se aumentar ou diminuir a poupan\u00e7a? Essa discuss\u00e3o \u00e9 antiga e passa pela disputa entre keynesianos e cl\u00e1ssicos.<\/p>\n
A Escola Cl\u00e1ssica tem por princ\u00edpio o liberalismo, isto \u00e9, todos os agentes, em busca de obter o m\u00e1ximo de satisfa\u00e7\u00e3o pessoal, promovem a obten\u00e7\u00e3o do bem-estar de toda a sociedade. De maneira geral, privilegiam o equil\u00edbrio do or\u00e7amento p\u00fablico, o controle da expans\u00e3o da moeda para conter a infla\u00e7\u00e3o e um baixo grau de intervencionismo estatal. Consideram que a insufici\u00eancia de demanda agregada n\u00e3o \u00e9 a regra na economia, ocorrendo apenas em momentos de crise. Tamb\u00e9m argumentam que os investimentos levam um longo per\u00edodo para aumentar a capacidade produtiva da economia (por exemplo, uma m\u00e1quina precisa ser constru\u00edda, vendida e ter sua opera\u00e7\u00e3o iniciada; uma estrada leva um longo tempo para ficar pronta). Por isso, tal Escola considera que a expans\u00e3o da demanda agregada, baseada em amplia\u00e7\u00e3o do consumo (e consequente redu\u00e7\u00e3o da poupan\u00e7a), pode at\u00e9 estimular a economia e o investimento, por\u00e9m tender\u00e1 a gerar infla\u00e7\u00e3o antes de provocar a expans\u00e3o da atividade econ\u00f4mica, tendo em vista que entre o aumento da demanda agregada e a amplia\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva da economia haver\u00e1 um largo intervalo de tempo, em que a maior demanda enfrentar\u00e1 uma oferta r\u00edgida, gerando aumento de pre\u00e7os.<\/p>\n
J\u00e1 o Keynesianismo defende que a solu\u00e7\u00e3o para o problema do desemprego viria com uma forte interven\u00e7\u00e3o do Estado por meio do incremento dos investimentos p\u00fablicos, que garantiriam o pleno emprego e influenciariam positivamente a demanda agregada. Para essa escola a demanda agregada gera, automaticamente, maior oferta de bens e servi\u00e7os (implicitamente, ou n\u00e3o se considera o hiato de tempo entre o est\u00edmulo a investir criado pela demanda mais alta e a entrada em funcionamento dos novos ativos decorrentes do investimento ou se sup\u00f5e haver ociosidade permanente na economia, que permite a contrata\u00e7\u00e3o de fatores de produ\u00e7\u00e3o sem aumento dos custos), n\u00e3o havendo o impacto inflacion\u00e1rio previsto pela Escola Cl\u00e1ssica.<\/p>\n
A aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas keynesianas fora de um contexto de crise, ou seja, sem que a economia esteja em depress\u00e3o, com grande ociosidade nos seus meios de produ\u00e7\u00e3o, tende a gerar press\u00f5es inflacion\u00e1rias.<\/p>\n
Frente a essa disparidade de vis\u00f5es, o que se deve fazer para garantir crescimento econ\u00f4mico: controlar as despesas das fam\u00edlias e do governo, para aumentar a poupan\u00e7a e consequentemente os investimentos; ou ampliar os gastos p\u00fablicos e das fam\u00edlias para estimular a demanda agregada, gerando redu\u00e7\u00e3o da poupan\u00e7a?<\/p>\n
Se a economia n\u00e3o estiver em situa\u00e7\u00e3o de crise, com alto grau de capacidade ociosa (situa\u00e7\u00e3o ideal para a aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica keynesiana), \u00e9 preciso encontrar caminhos para expandir a capacidade de crescimento sem gerar infla\u00e7\u00e3o ou desequil\u00edbrio no saldo de transa\u00e7\u00f5es correntes do balan\u00e7o de pagamentos.<\/p>\n
Podem-se fazer algumas conjecturas continuando a explorar as identidades b\u00e1sicas da teoria econ\u00f4mica. Sabe-se que a poupan\u00e7a \u00e9 a parte da renda que n\u00e3o foi utilizada no consumo. Assim, para aumentar a poupan\u00e7a interna, h\u00e1 duas possibilidades imediatas: ou baixar o consumo ou aumentar a renda.<\/p>\n
O ideal \u00e9 que se consiga aumentar a renda sem ter que restringir o consumo.<\/p>\n
Para tanto, pode-se aumentar a produtividade do trabalhador, ou seja, criar condi\u00e7\u00f5es para que ele produza mais com menos insumos. Isso abre uma janela para que se aumente o sal\u00e1rio real, sem gerar infla\u00e7\u00e3o, pois o incremento na renda est\u00e1 calcado no incremento da produtividade.<\/p>\n
Outra possibilidade para conseguir ganhos na renda \u00e9 aumentar a produtividade do capital investido na produ\u00e7\u00e3o pelas empresas e pelo governo. Isso permite a gera\u00e7\u00e3o de lucros maiores, ou seja, novamente tem-se mais renda, sem infla\u00e7\u00e3o, pois os pre\u00e7os n\u00e3o tiveram que subir para gerar os lucros maiores.<\/p>\n
A pergunta que fica \u00e9 como aumentar a produtividade dos fatores de produ\u00e7\u00e3o, como conseguir mais efici\u00eancia no processo produtivo. Para isso h\u00e1 dois caminhos. O primeiro \u00e9 aumentar o investimento, para agregar novas tecnologias, mais eficientes, ao processo produtivo. Mas a\u00ed voltamos ao ponto inicial: como aumentar o investimento sem mexer com a poupan\u00e7a. Como no curto prazo a renda \u00e9 limitada pela disponibilidade de fatores de produ\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o houver \u00a0recursos ociosos, o aumento do investimento exigir\u00e1 o aumento da poupan\u00e7a, e o aumento da poupan\u00e7a necessariamente passa pela redu\u00e7\u00e3o do consumo. Nessa situa\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9 mais importante conter o consumo no curto prazo, para que se tenha mais poupan\u00e7a e se possa financiar mais investimentos.<\/p>\n
Outra forma de se conseguir ganhos de produtividade \u00e9 redirecionar os gastos (do governo e das fam\u00edlias) para atingir uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade em todos os n\u00edveis (apesar de a literatura j\u00e1 reconhecer que gastos com educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o investimento em capital humano, as contas nacionais continuam a classific\u00e1-los como gastos correntes).<\/p>\n
A recomenda\u00e7\u00e3o de cunho keynesiano, \u00a0de poupar menos e gastar mais, pode at\u00e9 ser eficaz em sustentar o PIB no curto prazo, em situa\u00e7\u00f5es de grande ociosidade de fatores de produ\u00e7\u00e3o. Mas, no longo prazo, n\u00e3o existe m\u00e1gica. \u00c9 preciso criar condi\u00e7\u00f5es para aumentar a produtividade do capital e dos trabalhadores, aumentar a poupan\u00e7a para poder financiar mais investimentos sem impacto inflacion\u00e1rio e sem desequil\u00edbrio no balan\u00e7o de pagamentos. Apenas expandir gastos de consumo, mantendo baixa a poupan\u00e7a, bem como a produtividade dos trabalhadores e capital, \u00e9 a receita certa para ter alta infla\u00e7\u00e3o e baixo crescimento.<\/p>\n
Downloads:<\/em><\/strong><\/p>\n